quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
A transa do gato com a árvore
The King of Limbs - Uma aproximação
Só como exemplo, a seguinte:
"“The king of limbs” não tem em sua paisagem sonora os grandes relevos, com picos montanhosos elevadíssimos de emoção ("Fake plastic trees"), nem vales abissais de depressões profundas ("Let down"), ou ambos em uma só canção ("How to desappear completely"),"
Há muitos modos de se dizer o ser’, e considerando absolutamente tudo que li, vou falar de aproximação ///[[[em caso de namoro/paixão de Radio por Porishead]]]///. Muito simples: alguém falou de uma influência de Portishead nos nossos queridos amigos ingleses.
No primeiro post sobre o TKofL, comentei sobre um parecer entr
e Bloom e Little by Little, principalmente, com músicas religiosas e brasileiras. E na primeira faixa de Third, álbum de Portishead, é dito por um homem “Esteja alerta para a regra dos três: o que você dá retornará para você. Essa lição você tem que aprender; você só ganha o que você merece”. Ok., pode me dizer que se trata de uma religião Wicca, sim, tudo bem. Mas na verdade, grande parte das religiões têm a sua:
Apenas uma observação,
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Um Mito Esquisito
"Eu sou um horroroso/Sou um esquisito/Que diabos estou fazendo aqui?" Foi cantando esses versos autodepreciativos, esse sentimento de inadequação tipicamente adolescente, que o inglês Thom Yorke tornou-se conhecido. O ano era 1993 e esta música, "Creep" ("Horroroso"), virou uma espécie de hino de geração, junto com "Loser" ("perdedor"), do americano Beck Hansen. Na época, com o Nirvana acesíssimo, o rock alternativo dos EUA ainda era o centro das atenções do universo pop.O Radiohead, grupo liderado por Yorke, parecia destinado a ser one-hit wonder, pônei-de-um-truque-só. No Reino Unido, onde o single "Creep" tinha inicialmente vendido míseras 6 mil cópias, era um nome tratado sem o menor respeito. "Radiohead é digno de pena, sem tutano, uma caricatura covarde de banda de rock", destroçou o semanário New Musical Express, comentando um show, em dezembro de 1992. O primeiro álbum, Pablo Honey, editado no ano seguinte, começou a mudar timidamente essa reputação.
E depois de lançar em 1995 um excelente segundo álbum, The Bends (a fossa planetária em doze irretocáveis canções, comprada por 2 milhões de pessoas), o quinteto de Oxford aprontou em 1997 OK Computer. Aclamado pela crítica do mundo inteiro como obra-prima, 4 milhões de cópias vendidas, o trabalho foi apontado pelos leitores da revista inglesa Q como o melhor álbum de todos os tempos. Todos os tempos
COMPARAÇÕES COM U2 IRRITAM
Hoje, fãs de rock em centenas de países aguardam ansiosos para beber nas palavras do próximo CD do Radiohead, prometido para o segundo semestre deste ano. Pode vir um disco ao vivo (muitos shows foram gravados ano passado) ou uma mistura de novas composições e sobras das sessões de OK Computer, ainda assim, a expectativa é grande. Admirado por colegas como Michael Stipe, do R.E.M. ("existe entre mim, Thom e Courtney Love uma concorrência saudável, entre amigos, para ver quem vai fazer um disco melhor", diz Stipe), e Patti Smith, Thom Yorke desponta como o compositor mais talentoso de sua geração.
Seu pequeno defeito físico, a pálpebra
do olho esquerdo caída (semelhante à do jogador Amaral, do Palmeiras), passa até por charme bowieano, mas acaba ajudando a compor o personagem "creep", de jeito esquisito e postura lambisgóia. Desde que popularizou as canções angustiadas de The Bends, porém, ele é mais do que uma figura marcante. Thom é apontado como o sucessor de Kurt Cobain no trono do rock´n´roll. De brinde, outro posto incômodo: pole position na corrida das tragédias que tanto fascinam o gênero.
"Pior do que ser apontado como o próximo mártir do rock é ouvir que somos o novo U2", costuma reagir o cantor, venenoso. Um fato o afasta quilômetros do líder do Nirvana: porres ocasionais à parte, Thom não tem histórico como consumidor de drogas pesadas. Sua vida é estável, estabilíssima: ainda toca com os amigos de adolescência, namora Rachel há muitos anos, nem mesmo o empresário mudou no caminho para o estrelato. Frase que a companheira anotou para ele como conselho: "Mantenha sua vida particular organizada para poder ser livre e caótico no seu trabalho".
Deve ser mais ou menos isso o que ele faz. Os próprios colegas de Radiohead dizem que Thom é temperamental. Deixa-se magoar por tudo que sai de negativo a seu respeito. Mastigou rancorosamente por meses uma notinha publicada no New Musical Express, com o título "O chilique de Thom", sobre um show que abandonou pela metade na Alemanha. "Eu fico com ódio ao ler essas coisas. Estava muito doente e só resolvi cantar porque estava nevando muito, em consideração às pessoas que tinham vindo. Só que entrei no palco e, depois da terceira música, minha voz acabou", explicou.

TÉDIO MORTAL NAS TURNÊS
O documentário Meeting People Is Easy (Conhecer Pessoas É Fácil), lançado no final do ano passado na Inglaterra (sai no Brasil e nos EUA em abril), traz cenas que reforçam a imagem do gênio atormentado pelas pressões do sucesso e engolido pelo ganância da indústria de entretenimento. Claro, essa história de como-são-infelizes-os-popstars-que-vivem-na-estrada costuma soar revoltante para você, que ganha a vida arduamente num emprego comum e adoraria poder viajar pelo mundo. Para quem saudavelmente encara o rock e a música pop como diversão, antes de qualquer coisa,conversas assim também não costumam colar.
Mas é impressionante a força das imagens do jovem cineasta Grant Gee. Ele consegue mostrar toda a alienação e o imenso tédio de uma turnê mundial e das exaustivas atividades promocionais. Radicalizando na exposição do artista como produto (idéia aproveitada pelo U2, com ironia, na Pop Mart Tour), Gee expõe o vazio dos zilhões de entrevistas, a idiotia das perguntas dos jornalistas, seu despreparo. Todo o sentido da criação artística se perde numa maratona de (des)encontros superficiais.
No Japão, Thom e o Radiohead aparecem tentando gravar um vídeo agradecendo ao prêmio de melhor banda do ano na opinião dos leitores do New Musical Express. "Que m***! Deus, eu odeio fazer essas coisas", descontrola-se Thom, depois de errar a fala pela terceira vez. Ele também é flagrado sozinho no camarim, fugindo de uma festona no backstage; abrindo o microfone para a platéia cantar "Creep" da forma mais desanimada já vista (aparentemente, sem deboche) sobre um palco, e ouvindo desaforos de bêbados na rua,
Outra imagem elucidativa: a filmagem do clipe de "No Surprises",
Aliás, sobre o tom deprimido de suas canções, Thom já cuspiu, à época da turnê de The Bends. "Meu trabalho não é desculpa para ninguém se afogar
Ele diz não se preocupar em ser honesto ou verdadeiro como compositor. "Honestidade é uma qualidade babaca, não quer dizer muita coisa. Se as canções têm qualidade, extrapolam qualquer referência pessoal."
"THOM PARECE ELVIS PRESLEY"
Em dezembro, o Radiohead tocou em Paris, num megaconcerto da Anistia Internacional. Antes, já havia apoiado a causa tibetana, a favorita do amigo Michael Stipe, do R.E.M. A nova fase engajada foi explicada em recentes declarações à TV inglesa. "Nosso grupo surgiu da cultura grunge de protesto. Mas acho que crescemos e que ficou claro para nós que nossos problemas são extremamente irrelevantes e que é um insulto querer empurrá-los para as pessoas via MTV."
Thom se importa com o sucesso comercial, sim. "Ele é tudo que um artista pode querer. Só não vou me violentar para atingi-lo." O veterano fotógrafo Tom Sheehan, um dos que mais o clicaram, faz uma comparação diferente. "Thom parece Elvis Presley", surpreende. "Sério, introvertido, mas um cara comum."
Numa auto-entrevista publicada pela revista inglesa Dazed And Confused, em 1996, o cantor do Radiohead perguntou a si mesmo se ele não sabia rir de vez
Um excelente exemplo desse humor está na origem do nome
do CD de estréia do Radiohead, Pablo Honey, homenagem a um trote gravado por dois idiotas americanos que se intitulavam Jerky Boys, cujo cassete virou cult no início dos anos 90. Leia a transcrição e fique tranqüilo: não há tragédia à vista.

"Pablo, querido?"
"Sim?"
"Por favor, querido, vem pra Flórida!"
"Ãhn?"
"Pablo, querido, tem lavado seu c*?"
"Quem tá falando?"
"Deixa ele bem limpinho, querido!"
Nome: Thomas Edward Yorke
Data de nascimento: 7 de outubro de 1968
Local: Wellingborough, Inglaterra
Escolaridade: Inglês e Artes na Exeter University
Empregos anteriores: vendedor no setor de moda masculina de uma loja de departamentos, barman e servente num hospital psiquiátrico
Estado civil: namora Rachel
Ídolos musicais: Elvis Costello, Scott Walker, Joy Division, R.E.M.
Neuras e opiniões polêmicas
"As Spice Girls são pornografia light. São o anticristo do pop. Se eu tivesse filhos, me mudaria para uma ilha onde não houvesse nada delas."
"Avião é tortura. Já começa pelas filas, pessoas como ovelhas indo pro matadouro. O ar é horrrível. Na primeira classe, tudo bem, porque o ar ainda não passou pelos corpos das outras pessoas, mas quem fica no fundo do avião respira o ar que já passou por todo mundo. É um nojo."
"Carro é muito perigoso. As pessoas acordam cedo demais para sair de casas onde não gostam de morar, para ir a um trabalho do qual elas não gostam, em um dos mais perigosos meios de transporte do mundo. Eu nunca me esqueço disso."
"Rock´n´roll me lembra pessoas com má higiene pessoal que gostam de receber sexo oral de completas desconhecidas."
"Jim Morrison era bonito, tomava drogas, as mulheres gostavam e coisa e tal, mas sua poesia é m***."
"Adoro música, amo os caras da banda. Não entrei nessa para ir a festas e falar com pessoas famosas. Quer dizer, tirando o R.E.M. e o Elvis Costello."
"Vi a carta de despedida de Kurt Cobain nas costas de uma camiseta e segui a menina por várias lojas tentando ler."
Um menino normal
Thomas Edward Yorke nasceu em Wellingborough, na Inglaterra, em 1968, e logo foi morar no litoral da Escócia. Precisou fazer cinco operações no olho esquerdo, mas diz que teve uma infância normal. "Detestava o diretor da escola, adorava minha bicicleta... Sinto decepcionar, mas nunca apanhei muito", conta. O pai ganhava um bom salário vendendo equipamentos de engenharia química e tinha sido campeão universitário de boxe. "Não deu muito certo, mas ele tentou treinar comigo", lembra.
Aos 8 anos, a família mudou-se para Oxford, onde Thom estudou em escola particular, Abingdon. Aos 10, já ensaiava com os amiguinhos. A primeira música, fez aos 11. Depois integrou uma dupla, Mushroom Cloud, que, dizem, chegou a explodir TVs em suas performances. Aos 14 começou a cantar, "porque ninguém mais queria", e fundou a banda TNT (o baixista Colin Greenwood, colega de escola, já integrava a formação).
Era uma vez uma banda...
Foi a partir do TNT, grupo que Thom tinha na adolescência, que nasceu, em 1987, o On A Friday ("numa sexta-feira", por causa do dia marcado para os ensaios), banda que incluía, além de Colin, o guitarrista Ed O´Brien, mais velho, e o baterista Phil Selway. Jonny Greenwood, irmão mais novo de Colin, entraria depois. Em
Em fevereiro de 1992, o jornal Melody Maker foi cobrir um showzinho de um certo grupo chamado Candyskins,
Thom e seus colegas providenciaram rapidamente uma mudança de nome. Viraram Radiohead por causa de uma música do LP True Stories, do Talking Heads. A estréia em disco foi em março de 1992, com o EP Drill, puxado por "Prove Yourself". Para o single seguinte, os produtores americanos Paul Q Kolderie e Sean Slade começaram os trabalhos meio desanimados. Acharam a banda inexperiente, só gostaram de uma música nos ensaios. "A nossa canção tipo Scott Walker", anunciou Thom, antes de tocá-la. Paul entendeu que a música era do próprio Scott (ídolo de David Bowie, ex-Walker Brothers que lançou quatro discos solo antológicos no final dos anos 60) e Sean saiu lamentando: "Que pena que a melhor música é cover!"
Não era. Como o próprio Radiohead, inseguro, não conseguiu indicar nenhuma outra canção, ela virou o single. Surgia "Creep", que, meses depois, adotada por rádios em Telaviv (Israel) e, depois,
A conquista do mundo em três álbuns
PABLO HONEY (1993)
Álbum de estréia, gravado em três semanas, é um disco que melhorou com o tempo. Além de "Creep", tem bom punk rock ("How Do You?"), o deboche de "Anyone Can Play Guitar" e boas canções demonstrando personalidade, como "Stop Whispering" e "Prove Yourself".
THE BENDS (1995)
Segundo álbum, tristíssimo, uma espécie de Berlin (clássico de Lou Reed, de 1972) atualizado. Thom: "Compus as músicas no fundo do ônibus da turnê, bêbado, me sentindo mal. Eu achava que devia ser um artista torturado. Mas gosto de ´Fake Plastic Trees´, por exemplo, porque não é totalmente a sério, tem humor".
OK COMPUTER (1997)
Musicalmente mais sofisticado, tem elementos eletrônicos e estruturas como a de "Paranoid Android", em quatro movimentos. Thom diz que procurou escrever as letras, menos pessoais, como um observador, à moda de ´A Day In The Life´, dos Beatles. Apontado como a obra-prima do grupo.
Acidez nas letras
"E daí, se o pop morreu?
Não é nenhuma grande perda
De tanta plástica, seu rosto se rompeu
E a pele está descascando toda
Oh não, o pop morreu, longa vida ao pop!
Uma última fileira de coca
Para masturbá-lo"
"Pop Is Dead"
"Eu chego em casa do trabalho e você ainda está de camisola
O que é que eu posso fazer?
Conheço todas as coisas na sua cabeça e o que elas fazem com você
O que vai acontecer conosco?
O que podemos fazer?
Culpe a estrela negra
Culpe o céu que cai
Culpe o satélite que me guia para casa"
"Black Star"
"Um coração cheio feito um aterro
Um emprego que te mata lentamente
Feridas que não curam
Você parece tão cansado e infeliz
Bote abaixo o governo
Eles não falam, eles não falam por nós
Eu vou levar uma vida tranqüila
Um aperto de mão, monóxido de carbono
Sem alarmes e sem surpresas"
"No Surprises"
por Pedro Só
O reino dos Limbos

Não resisti e li uns comentários antes;
falaram
The Eraser é bom no que se propõe: no artifício. A única coisa que dá sensação de humanidade – aqui no sentido de para além da técnica/ artifício/ computador, ou seja, algo feito por alguém, indivíduo, particularidade –, é a voz de Thom. O que me parece cansativo nesse álbum é o uso de programas que ao descobrir sua funcionalidade, por exemplo, randômica/aleatória (quando é selecionado um instrumento há a opção de construir uma escala em qualquer tom, com a quantidade de notas que se quiser, com diferentes intensidades/ volume,...), o que acaba desnudando um trabalho feito só por ponta de dedos, e melhor/pior, é o programa que cria a linha sozinho. Isso me parece o mesmo que escrever um livro por um programa que utiliza impressão de frases de impacto, ou chuteira do futuro que cobra o escanteio nos 45 do segundo tempo, ou Cézanne usando um pincel eletrônico pra fazer o seu trabalho, ou um amor de plástico, com membro de plástico, com boca de plástico,...
E por fim, se quiserem fazer mais comparações com o solo ou com o Athom, o que se pode dizer é que TKoL alcança o ponto que eles gostariam de ter chegado, mas se perderam na tentativa,
e o maracatu eletrônico de Bloom está aí para dar o bom recado (ou seria BOOM?). E o que eleva esse trabalho, é ser feito pelo conjunto de cabeças que transformou o Radiohead numa das bandas mais cultuadas da atualidade.
Se In Rainbows demonstrava ser mais forte percorrendo diferentes aspectos da musicalidade, TKofL é (por mais estranho que isso possa parecer) um álbum pra dançar. É um álbum para o corpo!
Little by Little é quase um baião. Desde a batida a estrutura e o modo como sobem as notas. Se pensas ser um engano, duvido que não tenhas vontade de pelo menos bater o pé /no mínimo/ ao final de Feral, ou no uso de ‘pedais duplos’ em um dos tempos de Lotus Flower.
A bateria é o carro chefe! A percussão está para TKofL como a guitarra está para o rock. (E nem preciso dizer da ausência da mesma, o que não é novidade nenhuma).
Consigo até mesmo imaginar Thom desafinando
Radiohead não é o tipo de banda que fotografa as belezas do mundo, não sei se são incapazes, mas ter o mundo sob sua ótica – no que diz respeito a maior parte de sua obra – nos deixa longe de um pq ir lá fora enfrentar moinhos de vento. E seguindo nesse ritmo, a seqüência de Codex /e sua voz sem paixão/ e Give Up The Ghost, traz aquele momento bucólico. Mas Separator e os versos finais “Wake me up” levantam a bola. E que bola!
Dizer o q? Que se trata de um dos melhores álbuns que essa década vai parir? Que já é um clássico? Ou que não é tão inovador assim? Ah, não... Por favor. Talvez o melhor conselho e desfecho é: ouça. E ouça de novo. E ouça novamente. E dance, dance, dance: é praticamente um batuque europeu! Pois se não for pra dançar isso, nem queira ouvir o que rola nos dancefloors mais badalados.
Mas vá! Dê um outro prazer ao seu corpo...
A inspiração de Bloom? (consegui o link através de R4mon)
O piano (Valeu Iza!)
Separator Lyrics Radiohead
It’s like I’m falling out of bed
From a long, weary dream
The sweetest flowers and fruits hang from trees
Falling off the giant bird that’s been carrying me
It’s like I’m falling out of bed
From a long and weary dream
Just exactly as I remember
Every root
Every gesture
I’m a heart in cold ground
Like I’m falling out of bed
From a long and weary dream
Finally I’m free of all the weight I’ve been carrying
As my woman blows her cover
In the eye of the beholder
I’m a fish now out of water
Falling off a giant bird that’s been carrying me
I fell open
I laid under
At the tip count
I was just a number
I wanna tip it over
And lay back under
And if you think this is over
Then you’re wrong
If you think this is over
Then you’re wrong
If you think this is over
Then you’re wrong
(Wake me up, wake me up)
If you think this is over
Then you’re wrong
(Wake me up, wake me up)
Like I’m falling out of bed
From a long, weary dream
The sweetest flowers and fruits hang from trees
When I ask you again
When I ask you again
Wake me up
terça-feira, 30 de novembro de 2010
O SER E O NADA

A tensão se dissipou em abril. O Radiohead, renovado e purificado, emergiu com o surpreendente álbum Kid A trazendo um novo conceito para as apresentações ao vivo, numa arena própria, que não permite logotipos ou propagandas. E desenvolvendo uma atitude que quer manter a distância da adoração do público, mas, paradoxalmente, pode acabar sedimentando no Radiohead a aura de lenda viva do rock. Parte dessa atitude é dar pouca atenção à imprensa e não lançar compactos para promover o disco, como é costume na Inglaterra. Uma das raras entrevistas para divulgar Kid A foi concedida à revista inglesa Q, que traz Yorke estampado na capa da edição de outubro. Ali é que os fãs ficaram sabendo das complicações e crises encaradas pelo grupo durante as gravações do novo disco.
Esperando o término das obras de sua própria ilha de gravação, o Radiohead entrou no estúdio em janeiro de 1999, em Paris, para começar a gravar seu quarto álbum. Mas Yorke não tinha nada guardado na manga e, para piorar, estava enfrentando um bloqueio criativo. "O réveillon de 1998 foi um dos pontos mais baixos da minha vida", disse ele. "Sentia que estava enlouquecendo. Toda vez que pegava na guitarra pintava um desespero. Eu começava uma canção, parava depois de 16 compassos, escondia tudo na gaveta para depois pegar de novo e destruir. Me afundava mais e mais."
Enquanto isso, o guitarrista Ed O’Brien desenvolvia a sua própria visão de como deveria ser o novo disco. Para ele, o caminho tinha de passar por músicas cheias de guitarras, com pouco mais de três minutos, numa antítese completa do OK Computer. "Estava incomodado com todas as analogias com o rock progressivo. Principalmente porque odeio esse tipo de música. Achei que a única forma de a gente fazer o contrário de OK Computer seria abandonando todos os efeitos e deixando as guitarras bem cruas", lembrou. Nada poderia estar mais longe do conceito desenvolvido para o disco por Yorke: "Não existia a menor chance de eu fazer um disco assim. Fiquei com o saco cheio de melodia. Só queria ritmo", definiu o vocalista.
TESTE PARA OS EGOS
Em março de 1999, a banda se mudou para um estúdio em Copenhague (Dinamarca) e começou a gravar fragmentos de som, trechos de canções sem começo nem fim. "Foram duas semanas horríveis. No fim, tínhamos 50 rolos de fita e cada uma com apenas uns 15 minutos de música. E nada estava pronto", recordou O’Brien. A lógica do processo só parecia funcionar para Yorke, mas os outros integrantes estavam aborrecidos. "Trata-se de gerar pedaços de trabalho que podem estar incompletos e não ir a lugar nenhum. E, na hora que você os termina, eles podem ser irreconhecíveis, mas bem melhores do que aquilo com o que você começou. É isso que eu estava tentando fazer, independentemente de onde a música vinha ou de que membros da banda estavam envolvidos", justificou o mentor.
A partir daí, a metodologia que viria a dar a forma a Kid A entrou em fase de desenvolvimento. Os músicos passaram a trabalhar como unidade, experimentando com a eletrônica e, em muitas faixas, alguns instrumentos foram dispensados. Como resultado, quase não há som de guitarras neste disco de uma banda que conta com três músicos dedicados ao instrumento. "Todo mundo se sentiu inseguro. Sou um guitarrista e, de repente, acontece de não ter guitarra numa determinada faixa, não ter bateria em outra. Eu, Johnny, Coz e Phil tivemos de nos acostumar a isso. Foi o nosso teste, eu acho. Será que íamos sobreviver com os nossos egos intactos?", questionou O’Brien.
SEM SAIR DO LUGAR
Não foi só a guerra de egos que quase pôs fim ao Radiohead. O processo de gravação foi muito cansativo e considerado demorado demais por alguns (principalmente por Jonny, o mais jovem e mais impaciente membro do grupo). Dezenas de faixas eram começadas e depois abandonadas para serem retomadas apenas seis meses depois. Apenas uma música, "Knives Out", levou 373 dias para ser completada e, ainda assim, não entrou na seleção final de Kid A.
Quando o Radiohead iniciou os preparativos para o álbum no interior da Inglaterra, em abril de 1999, a impressão era de que a banda não havia avançado um passo sequer desde o começo das gravações, em janeiro. O estúdio próprio ainda não estava pronto e, sem uma data final para terminar o disco nem pressão da gravadora, a busca ia seguir para sempre, sem chegar a lugar nenhum. "Humanos precisam de um senso de ordem. Quando há muitas coisas sem terminar, em quais você se concentra? Isso causa pânico. Várias vezes, tivemos reuniões em crise", revelou O’Brien.
Num desses encontros tensos, a banda decidiu que, se todos chegassem à conclusão de que não havia nada a ser feito, a derrota seria reconhecida e cada um seguiria o seu próprio caminho. No fundo do poço, o grupo resolveu dar uma virada. O momento mais crítico foi quando tiveram de aceitar que nem todos os integrantes iriam aparecer em todas as músicas. "Precisamos aprender a participar de uma canção sem na verdade estar tocando nenhuma nota", afirmou o guitarrista.
Com a situação finalmente entrando nos eixos, mais ou menos nessa mesma época o Radiohead descobriu a força da internet. O’Brien começou a escrever um diário das gravações no site oficial do grupo e rapidamente as atualizações sobre o progresso das músicas viraram notícias nas principais publicações. Aparições surpresa surgiram na rede, para a alegria dos fãs, que assim tiveram a oportunidade de entrar no universo particular do grupo no estúdio, por meio de discotecagens, bate-papos, teatro de bonecos e músicas novas mostradas com exclusividade. Em uma das atualizações no diário do site, O’Brien recomendou aos fãs que comprassem o livro No Logo (Sem Logos), da jornalista canadense Naomi Klein, que trata da invasão das marcas das grandes coorporações na vida moderna. O livro fez tanto sucesso entre os integrantes da banda que, por algum tempo, cogitou-se que o álbum receberia o mesmo nome. Foi daí que o Radiohead criou o conceito da atual turnê, uma gigantesca lona branca sem marca ou patrocínio de nenhuma empresa.
COLAGENS SONORAS
Concluído o estúdio próprio, a partir de setembro do ano passado o Radiohead passou a dedicar-se às músicas de Kid A em tempo integral. No dia 13 de dezembro o diário eletrônico de O’Brien anunciava que seis canções já estavam praticamente prontas. Seguindo a sugestão do produtor (e membro honorário) Nigel Goldrich, a banda dividiu-se em dois grupos. Um deles começava a criar uma seqüência ou loop ou até mesmo barulhos, e o outro tinha de continuar a música dali, mas sem usar instrumentos acústicos, como guitarras e bateria. "Quando dei por mim estava tocando um (teclado) Moog. Ou operando máquinas que nunca havia usado. Você literalmente se sente uma criança", exaltou-se O’Brien. Apesar de nenhuma das músicas dessas sessões terem entrado no disco, pode-se dizer que foi só então que todos entenderam as idéias de colagens sonoras que Yorke estava querendo dar ao álbum. "Acho que Thom faz parte da mesma linhagem de John Lennon, David Bowie. Ele tem um dom extraordinário", elogiou o guitarrista.
Com o término das gravações e o fim do inferno astral que pontuou o processo criativo, a banda planejou uma pequena turnê pela Europa em junho e julho para testar as novas músicas ao vivo, enquanto organizava a lista final das que figurariam em Kid A. Continuando com seu conceito anticomercial, os integrantes do Radiohead não permitiram que sua gravadora editasse singles do álbum ou forçasse a inclusão de alguma faixa na programação das rádios, para estimular a livre escolha das emissoras. No primeiro trimestre de 2001, o grupo deverá lançar um álbum com as 14 faixas que sobraram das gravações do disco ou EPs de tiragens limitadas com quatro músicas cada.
Kid A é provavelmente o último disco "tradicional" do Radiohead. De agora em diante, o quinteto pretende investir numa maior interatividade, usando principalmente a internet e lançando singles sem grande alarde. Pelo menos até segunda ordem. Se há uma lição a ser tirada de toda essa experiência, é que "certeza" é uma palavra que não existe no vocabulário de Thom Yorke.
O antimarketing da banda, que prevê shows sem marcas ou patrocínios, raras entrevistas e pouca atenção à mídia, pode funcionar como um eficaz meio de divulgação e sedimentar a aura de lenda viva do rock
Numa das tensas reuniões em torno do novo trabalho, foi decidido que, se todos chegassem à conclusão de que não havia nada a ser feito, a derrota seria reconhecida e cada um seguiria seu próprio caminho
Da angústia fez-se a luz
Radiohead / Kid A / EMI
Tudo faz sentido no quarto álbum do Radiohead. Pegue exemplos recentes e reflita: o que o Nirvana fez depois de Nevermind? O que o R.E.M. fez depois de Out Of Time? Kid A, com sua falta de poesia, com sua falta de guitarra, com sua falta de estrofes e refrãos, equivale ao que a brutalidade de In Utero significou para o trio de Kurt Cobain e à leveza semi-acústica que Stipe, Berry, Buck e Mills conseguiram com Automatic For The People. Ou alguém acha que não existe sofrimento em se tornar o maior expoente de um gênero musical, ser o progenitor da obra mais aguardada do ano? Ainda mais para uma banda que foi motivo de piada pela crítica quando apareceu com seu primeiro single nas paradas.
O disco é complicado? Sim, até indigesto, mas não deixa de ser envolvente e de esbanjar qualidades. Quem conhece mesmo Radiohead vai fazer com Kid A o mesmo que uma criança faz quando recebe um ovo de páscoa enorme, que pelo barulho indica estar cheio de bombons. A surpresa é que esse ovo do Radiohead é oco. Ou pode parecer.
Até o meio do disco, é possível arrancar exatas 19 frases completas e diferentes de Thom Yorke. Só, e com muito custo. A abertura, com "Everything In Its Right Place", é fenomenal, envolve pela repetição dos quatro versos. "Kid A", a seguinte, é incompreensível. A voz de Yorke passa por um vocoder do além que não dá a mínima chance ao ouvinte de entender algo. Faz lembrar Tortoise. Com uma linha de baixo ameaçadora, "National Anthem" prossegue a viagem com bateria jazzy e saxofones dissonantes. Bate uma vontade de chacoalhar o corpo como faz o vocalista, que completa mais duas frases. Vem "How To Disappear Completely", com cordas adulteradas, e o clima hipnótico e claustrofóbico da obra se acentua com os versos "Eu não estou aqui/Isto não está acontecendo". "Treefingers" não tem letra, só sobreposição de órgãos.
Aí você respira fundo, porque dos 50 minutos de duração só se passaram 25. "Optimistic" é a que mais se aproxima de algo que poderia tocar no rádio. E é bem quando você está pensando nisso que entra um epílogo chamado "In Limbo" e a canção bate os 8 minutos e 49 segundos. Não, não vai tocar no rádio. "Idioteque": essa pode até mudar o conceito das pessoas sobre o que é música, a obra-prima do Radiohead. Por cima de uma base eletrônica, Yorke parece estar narrando um acidente de avião ou de navio e põe o fã no meio da agonia. Alguns vão desligar o aparelho de som depois dessa. Outros ainda vão ouvir o loop humano de bateria que conduz "Morning Bell", as harpas e o clima Walt Disney de "Motion Picture Soundtrack" e uma vinheta, escondida e sem relevância.
Quem acompanhou o martírio que foi a confecção desse disco, talvez já estivesse esperando tamanha "esquisitice". "Ora, OK Computer não parecia nada fácil à primeira audição e foi o estrondo que foi", poderia se pensar. Mas, não. Kid A é um disco pós-Radiohead (recuse se tentarem vendê-lo como pós-rock). Aquele som que virou o som do Muse e de milhares de bandinhas mundo afora, não pertence mais ao quinteto que o criou. O Radiohead enxergou a situação e trilhou um novo caminho. Gênio.
Bonequinhos e nada mais
Se os cinco rapazes optaram por não ter single e escolheram fotos para divulgação em que estão de costas, com a mão no rosto ou se escondendo atrás dos instrumentos, o "descaso" com a imagem não poderia ser diferente nos clipes. Foram produzidas animações para as faixas "Idioteque" e "Morning Bell". Na primeira, a imagem de duas pontas de dedos ficam se mexendo em um fundo branco durante quase a totalidade da música. Até que o close vai se abrindo e o que pareciam ser pontas de dedos transformam-se nas pernas do bonequinho Kid A, o mascotinho inventado pela banda, que se assemelha ao que o Jesus Jones usava. Em "Morning Bell", um Kid A assume a bateria, outro o violão, até que todo o Radiohead fique representado pelos bonequinhos. O desempenho deles consiste no clipe. Simples assim.
Raspas e restos que interessam
O Radiohead produziu pelo menos 23 faixas no estúdio, das quais apenas dez foram selecionadas para entrar no disco novo. As descartadas acabaram num CD para o fã-clube, numa tiragem limitada. Confira o que ficou de fora:
"Instrumental"
Sem um nome fixo, esta faixa é um interlúdio instrumental composto basicamente de piano e bateria, com inserções de guitarras com efeitos fantasmagóricos e samples de pessoas conversando.
"Follow Me Around"
Balada sombria, começa acústica e depois do segundo refrão (que consiste em Thom Yorke gritando repetidas vezes "follow me around" - "me seguindo") ganha agitação com a entrada da bateria, para depois ficar lenta novamente e acabar com diversos efeitos.
"Nothing To Fear"
Baladona com a voz de Thom Yorke contrastando com um piano tocado quase sem ritmo.
"I Promise"
Mais uma balada, bem marcada por uma bateria marcial. O vocalista repete diversas vezes a frase
"I promise".
A música encerra com um barulhento solo de guitarra.
"Knives Out"
Quem assistiu a algum dos shows ao vivo do Radiohead na turnê do meio do ano apostava que "Knives Out" seria o primeiro single de Kid A. Não se sabe por quê, mas os integrantes da banda resolveram deixar a música de fora da listagem final do álbum. Pena, porque "Knives Out" traz um belo fraseado de guitarra, lembrando um pouco algumas músicas de The Bends, o segundo disco do Radiohead. Nessa versão, ela acaba com uma voz fina distorcida falando palavras sem nexo.
"Lift"
Outra música na fronteira entre a balada e o rock. Com um refrão pegajoso, também poderia perfeitamente ser um single de Kid A.
"True Love Waits"
Começa acústica, somente com voz e violão, e é uma das mais bonitas que o Radiohead gravou nas sessões de Kid A. Se estivesse no disco, tinha tudo para alcançar o mesmo sucesso de "No Surprises" ou "Fake Plastic Trees".
"Manowar/Big Boots"
Iniciando quase a capela, vai sendo preenchida aos poucos por diversos instrumentos e barulinhos engraçados, até cair num rock experimental levado por uma guitarra envenenada e um órgão que entram na metade da música. No meio, surge uma voz falando "fucking brilliant" ("maravilhoso"), entre outras coisas. Acaba com Yorke cantando "big boots" ("sapatos grandes") com voz chorosa.
"(Don’t Get Any) Big Ideas/Nude"
Gravada apenas com voz e violão, é uma balada que abre anunciando: "não vá imaginando muita coisa".
"You And Who’s Army"
Com um instrumental bem jazzy, lembra um pouco músicas de cabaré da primeira metade do século.
"Dollars And Cents"
Uma das músicas mais experimentais gravadas nas sessões de Kid A. Destaque para o baixo acústico que carrega a canção.
"Egyptian Song"
Outra com um instrumental puxando bastante para o jazz. Piano e baixo acústico se contrapõem à voz sofrida de Yorke.
KID B
Amnesiac
EMI
Para que qualquer dúvida se dissipe: Amnesiac é Kid A.
O Radiohead não guardou as músicas mais "fáceis" das seções do álbum de 2000 para serem lançadas agora, como alguns desconfiavam. As 11 faixas do novo trabalho são tão experimentais e esquisitas quanto as do anterior. Tão boas e envolventes também, só que agora não existe impacto.
A banda faz questão de dizer que não são sobras, que Amnesiac tem uma unidade, que é mais The Bends, que isso e aquilo. Dá para acreditar (ainda). Mas a verdade é que existem até músicas correspondentes entre esse e Kid A. A de abertura, "Packt Like Sardines In A Crushd Tin Box" é similar, inclusive na repetição de frases, a "Everything In Its Right Place"; a jazzística "Life In A Glasshouse" é prima-irmã de "The National Anthem"; "You And Whose Army?" é dançante como "Idioteque"; "The Morning Bell Amnesiac" é a continuação da outra "Morning Bell", embora com andamento e instrumentos diferentes. E "Knives Out", a música que mistura o primeiro-ministro Tony Blair com canibalismo e que demorou 365 dias para ser finalizada, é a balada pop, perdida no meio da esquizofrenia, como "Optimistic".
No fim das contas, o que prevalece é a estranha jogada de marketing do mentor Thom Yorke. Sem singles, clipes, turnês e com pouquíssimas entrevistas e fotos para divulgação, Kid A foi um sucesso de vendas (sem falar que todo mundo que gosta de música pop ouviu a pergunta "o que você achou do novo do Radiohead?" pelo menos uma vez no ano passado). Porque seria sucesso de qualquer jeito, a curva ascendente do grupo era visível. Para o lançamento de Amnesiac, o vocalista já confirmou que haverá lançamento de singles (a triste "Pyramid Song" começa, depois virão "Knives Out" e "I Might Be Wrong"), clipes, turnês, play-backs em programas de auditório e entrevistas que falarão sobre sua tortuosa e miserável existência. Vai manter a curva estável e iniciar a expectativa pelo próximo trabalho, que pode ser decisivo.
José Flávio Jr.
Melhor Artista Internacional do ano 2000
O que o Radiohead conseguiu fazer com mídia e fãs de rock no ano que passou foi algo espetacular. Destaque em todos os veículos de comunicação - mesmo avesso a entrevistas e promoções -, ofuscou o brilho do lançamento do U2, congelou o mundo para lhe entregar um álbum frio, sem refrãos memoráveis nem histórias de amor ou riffs de guitarras assoviáveis. Pior: Kid A levará anos para ser compreendido e muita gente tentará copiá-lo sem atingir êxit
o. Todo o esquema foi proposital. A idéia era complicar ao máximo, dar coceira na cabeça da platéia. Entraram numa viagem claustrofóbica e irônica de onde é difícil imaginar como e quando sairão. Até a home page da banda é de tétrica navegação. Ela é cheia de bifurcações e provocações - a área dedicada ao comércio de produtos com a marca Radiohead leva o nome de "desperdício".O momento não poderia ser mais propício a toda essa onda. OK Computer, o terceiro disco, deixou o grupo numa posição confortável. Respeito entre os pares e boas vendas foram fundamentais para que a EMI patrocinasse a estocada de Yorke, Ed O’Brien, Colin Greenwood, Jonny Greenwood e Phil Selway. Foram horas e horas em estúdio, gastando dinheiro, perdendo material, gravando jams, gastando dinheiro, duelando com seus próprios egos, descartando melodias fáceis e gastando dinheiro. Colaram o resultado da aventura, escolhendo os retalhos mais experimentais, e entregaram aos executivos. "É o seguinte: não gravaremos clipes, não lançaremos single promocional, não queremos fotos nem letras no encarte e só faremos shows com a nossa própria estrutura" - deve ter sido mais ou menos esse o papo da banda com seus patrões.
A operação parece ter sido lucrativa. Até a EMI brasileira comemorou - foram comercializadas 10 mil cópias de Kid A só na primeira semana de loja. E o Radiohead ficou feliz, com seu disquinho sincero, esquizofrênico e genial. Deve continuar vendendo bem conforme as pessoas forem descobrindo seus encantos escondidos. Um dia, alguém vai pegar qualquer desses filmes da Disney e descobrir que existe sincronismo entre ele e Kid A. Ao menos, vai ter gente retirando a parte da caixinha do CD onde o disco vai preso para achar o segundo encarte que tem ali atrás (a edição nacional saiu sem isso).
Quem ousou pensar em jogada de marketing, quem inventou teorias diminutivas para justificar a não compreensão do álbum tem alta chance de ter errado em cheio. O Radiohead é um grupo no qual ainda dá para se confiar. É possível enxergar honestidade em seus atos e isso comove. Melhor aproveitar agora. Porque, um dia, eles vão fazer o que o U2 faz hoje. Mágica, como tudo nessa vida, não é para sempre.